Estruturas para Linhas de Transmissão e Distribuição

Neste post será abordado um componente fundamental para assegurar o isolamento dos cabos condutores de linhas aéreas de transmissão e distribuição de energia elétrica: as estruturas suporte.

As dimensões e formas das estruturas dependem de vários fatores [1]:

  • disposição dos condutores;
  • distância entre os condutores;
  • dimensões e formas de isolamento;
  • flecha dos condutores;
  • alturas de segurança;
  • função mecânica a ser desempenhada;
  • formas de resistir às forças atuantes;
  • materiais que compõem a estrutura; e
  • número de circuitos a suportar.

Quanto à disposição dos condutores, tradicionalmente são triangular, horizontal ou vertical. Algumas formas não tradicionais têm sido praticadas no sentido de aumentar a potência natural das linhas, seguindo a tendência de linhas de potência natural elevada (LPNE).

Quanto às funções das estruturas, elas podem ser projetadas para suportar cargas verticais, horizontais transversais, e/ou cargas horizontais longitudinais. Por tipo de carga a suportar, as estruturas podem ser classificadas em estruturas de suspensão (suportam cargas verticais), de ancoragem (suportam cargas longitudinais e são também chamadas de amarração), para ângulos (podem ser de suspensão ou ancoragem, a depender da intensidade do ângulo), de derivação e de transposição. Quanto à forma de resistir, as estruturas podem ser classificadas em auto-portantes (rígidas, flexíveis, mistas ou semi-rígidas) ou estaiadas. As estruturas auto-portantes, como o próprio nome diz, se sustentam sozinhas, utilizando quatro pontos de apoio ao solo, mas um uso intensivo de aço para prover essa característica. Já as estaiadas requerem a aplicação de quatro estais para suprir a estabilidade necessária, como veremos adiante. Nas Figuras 1 a 5 são ilustradas algumas estruturas utilizadas em linha de transmissão.

Figura 1 – Estruturas tradicionalmente utilizadas em 69 kV, todas em suspensão, (a) triangular assimétrica e (b) triangular simétrica [1].
Figura 2 – Exemplos de estruturas de circuito duplo, também em suspensão [1].
Figura 3 – Fotos de estruturas de aço, cedidas pela CHESF.

Na Figura 3, fica evidenciada a tendência do projeto de torres para linhas de transmissão, onde se procura economizar na quantidade de material utilizado para a sua constituição (aço, no caso). A estrutura estaiada veio para substituir as autoportantes, de tal forma a se inserir quatro estais (tirantes em aço) para dotar a estabilidade necessária à estrutura, enxugando o uso do aço exaustivamente utilizado nas estruturas auto portantes. A estrutura monomastro representa uma evolução às estruturas estaiadas, de tal forma a enxugar ainda mais o uso do aço. Observa-se que, em vez de dois mastros para a sua sustentação é utilizado apenas um, incorporando uma economia adicional significativa em relação à tecnologia anterior. Na Figura 4, são ilustrados dois projetos de estruturas mono mastro alternativos, sendo o primeiro para circuito simples e o segundo para circuito duplo triangular.

Figura 4 – Projetos de estruturas mono-mastro alternativos (cortesia CHESF).

Em todas as figuras até aqui apresentadas, as estruturas são de suspensão: suportam cargas verticais e são consideradas estruturas leves, extremamente desejáveis pelos projetistas, no afã de tornar o projeto final da linha de transmissão mais econômico. Nas Figuras 5 e 6 são apresentadas estruturas de ancoragem, as quais incorporam a característica de suportarem cargas longitudinais, ou seja, esforços alinhados com o cabo condutor. São estruturas importantíssimas em uma linha de transmissão, pois permitem: início e final da linha, ângulos acentuados para ajustar o alinhamento da linha/contornamento de obstáculos, montagem de praças de lançamento dos cabos condutores e segurança adicional em travessias especiais. São estruturas bem mais robustas do que as de suspensão e funcionam como um bloqueio relacionado a esforços dinâmicos decorrentes de rupturas de cabos condutores, não permitindo que danos em cascata venham a se propagar. Uma observação geométrica rápida permite identificar quando se trata de uma estrutura de amarração: as cadeias de isoladores ficam na horizontal, em série mecânica e elétrica com os cabos condutores e requerem a instalação de pulos para darem continuidade elétrica à linha. Um detalhe adicional é que essas cadeias são maiores do que as de suspensão. Isso procura assegurar que eventuais arcos de potência venham a ocorrer nas cadeias de suspensão, poupando as de amarração, diante do seu valoroso papel mecânico.

Figura 5 – Estrutura de ancoragem ou amarração [2].
Figura 6 – Outro exemplo de estrutura de ancoragem [2].

Por outro lado, as estruturas de ângulo, de derivação e de transposição realizam papéis importantes no sistema de potência. As estruturas de ângulo permitem que o trajeto da linha possa sofrer uma mudança de direção para contornar eventual obstáculo (reservas ambientais, acidentes geográficos, centros urbanos, etc.), conforme ilustrado na Figura 7. Nessas condições, a estrutura se torna obrigatória no vértice do ângulo e deve suportar esforços adicionais na bissetriz do ângulo (beta), podendo requerer a instalação de estais no sentido oposto a essa bissetriz ou a opção por uma estrutura de ancoragem, a depender da magnitude do ângulo de desvio (alfa).

Figura 7 – Estruturas de ângulo [3]

As estruturas de derivação têm a função de alimentar uma terceira subestação que venha a se instalar próxima do traçado de uma linha já existente, conforme registra a ilustração contida na Figura 8. Essa alimentação passaria a ser feita de forma mais confiável a partir da evolução para uma nova configuração. Nessa nova situação, a linha A-B seria seccionada, passando a surgir duas novas linhas, A-C e C-B, com todas as vantagens inerentes à operacionalidade, confiabilidade e esquemas de proteção associados. A estrutura de derivação, para todos os efeitos, é uma estrutura de ancoragem, apenas com uma função diferenciada.

Figura 8 – Aplicação de estruturas de derivação [4].

As estruturas de transposição têm a função de permitir a transposição das fases de tal forma a beneficiar o sistema de potência na minimização dos desequilíbrios inerentes a linhas longas (maior que 100 km). A grosso modo, também são estruturas de ancoragem, com o diferencial da introdução das “cadeias de transposição”, a quais provêm a nova sequência de fases pretendida, conforme ilustração feita na Figura 9, na qual as linhas tracejadas indicam “pulos” que fazem as ligações em plano inferior ao apresentado. Esse é um esquema utilizado para linhas de até 230 kV. As cadeias de transposição, logicamente, são mais longas que as de ancoragem, uma vez que ficam submetidas à tensão fase-fase. Para linhas de tensão mais elevadas, a transposição é feita em dois vãos, utilizando duas estruturas simétricas, ilustradas na Figura 10, as quais permitem a inversão da sequência de fases ao longo dos vãos. Esse novo esquema é preferido, diante da manifestação acentuada do efeito corona, caso fosse utilizado o esquema ilustrado na Figura 9.

Figura 9 – Estruturas para transposição de fases, utilizada até 230 kV [4].
Figura 10 – Ilustração de estruturas utilizadas para a transposição de fases em linhas de classe de tensão superiores a 230 kV [4].
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Quanto aos materiais para composição das estruturas, são utilizados: madeira, concreto armado ou aço galvanizado. As estruturas de madeira, apesar de incorporarem características técnicas atrativas associadas ao seu baixo peso, vêm sendo preteridas, diante de questões ecológicas e custos com o tratamento para torná-las e mantê-las resistentes ao ataque de insetos. Por outro lado, as estruturas de concreto, apesar de apresentarem atrativos relevantes, quando se enfoca aspectos de manutenção (praticamente imunes a oxidação e roubo de peças), apresentam desvantagens relacionadas ao seu peso e às dificuldades de montagens, principalmente quanto maior a sua altura. Nas Figuras 11 a 13 são apresentadas algumas estruturas de concreto e de madeira, em complementação às de aço, já apresentadas anteriormente.

Figura 11 – Estrutura em concreto, tipo H, em ângulo, para 69 kV. Observe a cadeia inclinada, na direção do vértice do ângulo, como também o uso de estais no sentido oposto à direção da bissetriz do ângulo [5].
Figura 12 – Estrutura em concreto em ângulo forte. Observe que são de amarração e que foi utilizado tirante de reforço recíproco, unindo as duas estruturas [6].
Figura 13 – Estrutura de madeira para linha de distribuição [7].

Um detalhe adicional também deve ser considerado na alternativa da estrutura a ser escolhida: o balanço das cadeias de isoladores. Esse balanço está associado aos esforços do vento atuante transversalmente à linha de transmissão. Sob a ação desses esforços, a cadeia pode ser inclinada na direção da estrutura ou se afastando dela. No primeiro caso, pode causar a aproximação do condutor à estrutura e consequente risco de abertura de um arco elétrico, caracterizando um curto-circuito fase-terra e a retirada intempestiva da linha de operação, através dos sistemas de proteção. No segundo caso, a faixa de servidão deve incorporar esse deslocamento do condutor, implicando em aumentar a sua largura. Para evitar esses balanços, pode-se restringir os graus de liberdade da cadeia de isoladores, na estrutura, através da utilização de cadeias em “V”, conforme ilustrações registradas na Figura 14. É importante lembrar que a adoção dessa alternativa, torna a estrutura mais compacta e a faixa mais estreita, mas incorpora o dobro de cadeias de isoladores, como também aumenta o risco de falhas desses componentes. Torna-se, portanto, uma escolha técnico-econômica, na qual o preço da faixa a ser indenizada representa um fator decisório significativo.

Figura 14 – Adequações estruturais para compensar a ação do vento [4].

Algumas outras estruturas são típicas de linhas de distribuição de energia. Nas Figuras 14 a 18 são ilustradas algumas aplicações. Destaques são feitos às estruturas utilizadas para linhas compactas, muitas delas, inclusive, utilizam estruturas originalmente montadas para linhas convencionais, para dar suporte a diversos circuitos compactos em um processo de “up rate” muito robusto, diante do aumento considerável da capacidade de transmissão da linha de distribuição original.

Figura 14 – Estrutura convencional para distribuição utilizada em 13.8 kV [8].
Figura 15 – Vão e estrutura de linha de distribuição secundária [8].
Figura 16 – Estrutura para linha de distribuição compacta, observe a possibilidade de convívio da linha com a vegetação, em contraponto com a linha convencional à direita [8].
Figura 17 – Linha de distribuição compacta após a ultrapassagem da vegetação. Veja a linha tradicional à direita. Essa constatação ressalta a aplicabilidade dessas linhas compactas em áreas urbanas, diante do convívio com a vegetação sem perturbações operacionais [8].
Figura 18 – Linha de distribuição compacta sendo incorporada à linha convencional. Essa solução permite aproveitar a estrutura original e instalar até quatro circuitos novos compactos [8].

PROJETOS DE ESTRUTURAS

Alguns aplicativos se propõem a dar suporte no desenvolvimento do projeto específico de torres treliçadas ou que utilizam postes. Podem ser modeladas as torres auto-portantes e as estaiadas. Os programas concebem o design de estruturas sob cargas especificadas pelo usuário [9].

Outros se propõem a dar suporte ao projeto de estruturas compostas de madeira, madeira laminada, aço, concreto e postes de polímero reforçado com fibra (FRP) ou mastros de alumínio modulares. Os programas também concebem o projeto de estruturas sob cargas especificadas pelo usuário e pode calcular os esforços máximos permitidos para os vãos de vento e de peso [10].

ESTRUTURAS CONCEITO E TEMÁTICAS

A título ilustrativo, são apresentadas nas Figuras 19 e 20 alguns projetos de estruturas “temáticas” e “conceito”. Algumas dessas estruturas estão apenas no imaginário, outras já operam e outras são adequações arquitetônicas feitas em áreas urbanas sobre linhas em operação.

Figura 17 – Estruturas “Temáticas” [11].

Figura 18 – Estruturas “Conceito” [11].

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Observa-se, portanto, a grande diversidade de estruturas voltadas para dar sustentação a linhas aéreas de transmissão e distribuição de energia elétrica. Foram observados detalhes, desde a geometria, passando pelos materiais que as constituem, até a aplicação de estruturas temáticas e conceito. Essas últimas representam contribuições arquitetônicas valiosas para reduzir o impacto visual causados por esses componentes, tanto em regiões urbanas quanto em regiões rurais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] Fuchs, Rubens Dario, Transmissão de Energia Elétrica, Livros Técnicos e Científicos S. A. Editora EDUFU, UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA. 2015.

[2] Fotos do próprio autor tiradas do sistema de transmissão canadense, entre as cidades de Toronto e Waterloo.

[3] Fuchs, Rubens Dario e Almeida, Márcio Tadeu -Proje-tos Mecânicos das Linhas Aéreas de Transmissão-, Editora da Escola Federal de Engenharia de Itajubá. 2005.

[4] Relatório de Projeto de P&D UFPE/CELPE “Análise dos Métodos de Correção dos Limites de Carregamento das Linhas de Transmissão da CELPE”. 2007.

[5] Ilustrações feitas ou adaptadas pelo próprio autor.

[6] Google Earth – Estrutura de saída da linha Bongi-Ilha do Retiro (CELPE).

[7] https://www.google.com/search?q=postes+de+madeira&biw=1064&bih=1030&sxsrf=ALeKk03zEgdHR7cQCmocDkUYIBg-W4qYOA:1585077564883&tbm=isch&source=iu&ictx=1&fir=sbD9X_wsgYcwRM%253A%252CIPsHdjLaWUtNHM%252C_&vet=1&usg=AI4_-kS4y-e2Nd9O-iX_zMGUUxwXXQug5A&sa=X&ved=2ahUKEwjX28iJ6rPoAhWcH7kGHRBoDXkQ9QEwAHoECAkQFQ#imgrc=YmjlgbCyS819lM

[8] Fotos do próprio autor tiradas do sistema de distribuição da CELPE, na Av. Miguel Arraes de Alencar.

[9] https://www.powerlinesystems.com/tower.

[10] https://www.powerlinesystems.com/plspole.

[11] Figuras diversas captadas na internet.

5 comentários em “Estruturas para Linhas de Transmissão e Distribuição

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  1. Excelente explicação, Maurício. Texto enriquecedor e elaborado com muita clareza sobre um assunto ainda pouco explorado, como é o caso das linhas de transmissão.

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