O comportamento eletromecânico de uma linha de transmissão dita diretamente as suas capacidades operativas. Os modelos para cálculo dos limites operacionais de uma linha, no que tange à temperatura máxima que o condutor pode atingir sem violar as distâncias verticais são adequadamente aplicados, quando do projeto e construção da linha. Entretanto, com o passar do tempo, requerem aferições específicas de campo no intuito de levantar e/ou comparar premissas adotadas que podem ter sido alteradas, ou por interferências de terceiros, ou por distorções ambientais presentes. Uma outra situação aferida é a possibilidade de incorreções no modelo adotado ou em critérios construtivos.
Através da aplicação de instrumentações específicas, em levantamento de campo, é possível aferir as alturas dos condutores, na ocasião do levantamento e inferir se tais alturas estão compatíveis com os critérios de segurança, quando da operação da linha em seu limite térmico [1]. Tal metodologia permite expressar os limites operacionais em uma curva similar à apresentada na Figura 1.

Figura 1 – Curva de carga de uma linha de transmissão
As correções eventuais de alturas requeridas estão diretamente associadas à recuperação da ampacidade nominal da linha para que ela possa operar em seu limite térmico nominal (refurbishment), enquanto a busca de um perfil de alturas maiores do que as definidas no projeto da linha está associada ao aumento da ampacidade nominal (uprate).
Para proceder à aferição dos limites de carregamento de uma linha, já em operação, os levantamentos de campo podem ser realizados de forma expedita e simplificada em relação aos processos tradicionais associados a levantamentos topográficos. Podem ser realizados, quando de inspeções terrestres rotineiramente realizadas para se aferir o estado da linha de transmissão. Os procedimentos ora descritos visam definir as diretrizes necessárias a se estabelecer, de uma forma padronizada e uniforme, os limites de carregamento em linhas aéreas de transmissão.
Para subsidiar as simulações computacionais posteriores, devem ser levantados, por vão e por fase, as seguintes informações: a menor distância vertical do condutor ao solou ou obstáculo; a menor distância vertical entre condutores, no caso de travessia linha – linha e a distância do vértice da catenária ao solo. Para cada um dos pontos levantados, devem ser medidas também as distâncias horizontais do ponto à estrutura mais próxima.
Os tipos de travessia devem ser identificados/codificados em consonância com o que estabelece as normas técnicas [2]. A título de exemplo, na Tabela 1, é registrada codificação já praticada [1], [3].
Tabela 1 – Exemplo de codificação de tipos de travessia

Quando do levantamento de campo são necessários, ainda, os seguintes registros: data e hora em que o levantamento foi realizado; registro da temperatura ambiente e registro da leitura da corrente de carga da linha, quando do levantamento. São necessários basicamente os seguintes equipamentos para a realização do levantamento de campo: vara telescópica; termômetro; trena e relógio.
Os dados levantados permitem a utilização de modelos de cálculo da temperatura do cabo condutor, a qual depende das condições ambientais e operacionais reinantes [4], [5], [6], conforme ilustração contida na Figura 2. Ressalta-se que, mesmo com a disponibilidade de termovisores, a metodologia mantém o uso dos modelos de cálculo para inferir, também, a temperatura do cabo, quando do levantamento de campo, devido a dois motivos: minimização dos custos envolvidos e a imprecisão da temperatura absoluta obtida por esses equipamentos, os quais são precisos na aferição de temperaturas referenciais (ponto observado em relação ao corpo adjacente).

Figura 2 – Ilustração das interferências ambientais no equilíbrio térmico do condutor.
A inferência de variações da altura dos condutores, nos pontos específicos levantados é possível, através de formulações tradicionais do comportamento mecânico de cabos condutores suportados em dois pontos [7], conforme ilustração contida na Figura 3.

Figura 3 – Ilustração para cálculo das variações de altura em pontos específicos da linha.
Nesta figura, pode ser demonstrado que a variação de altura é obtida por:

Onde:




Sendo:
X – Distância do ponto crítico do vão à estrutura mais próxima em m;
teta 1 – Temperatura inicial do condutor em oC;
teta 2 – Temperatura final do condutor em oC;
a – Vão da LT em m;
P – Peso condutor por unidade de comprimento em Kgf/ m
Para o cálculo dos novos valores da tração, após a dilatação térmica do condutor, é utilizada a “equação de mudança de estado” dada por:

Onde:
TO1 – Tensão de esticamento em Kgf à temperatura teta1 em oC;
TO2 – Tensão de esticamento em Kgf à nova temperatura teta2 em oC;
v – Velocidade do vento em m/s;
d – Diâmetro do condutor em m;
S – Área total da seção do cabo em m2;
P1 – peso unitário do cabo em Kgf/m;
A – Vão básico da LT em m;
E – Módulo de elasticidade em Kgf/mm2;
e – Alongamento calculado em m/m;
a – Coeficiente de dilatação térmica do material em 1/oC;
P2 – Peso virtual do cabo (com vento) em Kgf/m – na ausência de vento P2=P1;
Fv – Esforço do vento transversal ao condutor em Kgf/m.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Mais detalhes sobre o comportamento eletromecânico de linhas de transmissão podem ser encontrados no livro “Recapacitação de Linhas Aéreas de Transmissão – Desenvolvimento Sustentável do Sistema Elétrico”, ilustrado na Figura 4, o qual pode ser encontrado nas seguintes livrarias/editoras:
- Editora Blucher – https://www.estantevirtual.com.br/cliquebooks/pessoa-ligia-veronica-genesio-recapacitacao-de-linhas-aereas-de-transmissao-desenvolvimento-sustentavel-do-sistema-eletrico-3644396776?show_suggestion=0
- Livraria Jaqueira – livrariajaqueira.com.br
- Amazon – https://www.amazon.com.br/dp/6555064188?ref_=cm_sw_r_apan_dp_M52QKPC1VZHB03M61KT2
No livro, além de uma abordagem mais ampla sobre o tema, é possível encontrar algoritmos computacionais para agilização dos cálculos envolvidos, além de uma extensa literatura sobre técnicas de recapacitação e correção da ampacidade da linha de transmissão.

Referências Bibliográficas
[1] Bezerra, J.M.B.; LIBERATO, J. A. L. ; EDUARDO, J.V. . APLICAÇÃO DE PROCESSOS SEMI-PROBABILÍSTICOS NA DEFINIÇÃO DE LIMITES DE CARREGAMENTO DE LTS EM CONDIÇÕES NORMAIS E DE EMERGÊNCIA.. In: IX Seminário Nacional de Produção e Transmissão de Energia Elétrica, 1987, Belo Horizonte. Anais do IX-SNPTEE-GLT, 1987.
[2] ABNT. Projeto de Linhas Aéreas de Transmissão de Energia Elétrica – Procedimento. NBR-5422. 1986.
[3] Bezerra, J.M.B.; RAMOS, F. ; RÉGIS JR, O. . Refurbishment of Transmission Lines, Costs and Benefits, Economic Decision. In: XII CEPSI – CONFERENCE ON ELECTRIC POWER SUPPLY INDUSTRY, 1998, Nonthaburi, 1998.
[4] House, H. E.; Tuttle, P. D. Current-Carrying Capacity of ACSR. Power Apparatus and Systems, Part III. Transactions of the American Institute of Electrical Engineers. v. 77, n. 3, p. 1169-1173, abr. 1958.
[5] Morgan, V. T. The Thermal Rating of Overhead-Line Conductors Part I: The Steady-State Thermal Model. Electric Power Systems Research. n. 5, p. 119-139, 1982.
[6] IEEE Standard for Calculating the Current-Temperature of Bare Overhead Conductors, IEEE Std 738-2006 (Revision of IEEE Std 738-1993). 2007.
[7] Fuchs, Rubens Dario e Almeida, Márcio Tadeu, Projetos Mecânicos das Linhas Aéreas de Transmissão, Editora da Escola Federal de Engenharia de Itajubá. 2005.

Professor, foi tudo muito bem colocado. Parabéns, inclusive pelo livro. Hoje nós conseguimos informações de campo com muito mais precisão com sistema lidar, fotogrametria, etc. Inclusive com a popularização dos drones, hoje é algo não tão caro. Com relação a termografia idem. Acho muito mais preciso do que pegar informações de centro de operação, dados climáticos, etc. Mesmo os casos q desejamos investir menos existem estações climatologicas móveis e medidores laser manuais que ajudam muito. A formulação colocada é uma formulação simplificada. Serve para cálculos rápidos e locais em campo para conferência. Um projeto necessita de uma formulação mais avançada e um software para os cálculos.
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Com certeza, Giovani. Esses enfoques são mais detalhados no livro citado.
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