Escolha Otimizada de Condutores para Linhas de Transmissão

A escolha adequada do condutor que irá ser incorporado a uma nova linha de transmissão passa por análises técnicas criteriosas e suas implicações econômicas.

Em um enfoque empresarial, trata-se de uma tomada de decisão voltada para assegurar que o investimento realizado também venha a minimizar as perdas de energia em sua transmissão. Procura-se estabelecer uma relação ideal entre dois fatores aparentemente antagônicos: o custo da energia perdida no transporte e o investimento necessário à sua redução.

As perdas de energia na transmissão se devem a dois fatores: o efeito Joule e o efeito corona. O primeiro é proporcional à corrente transportada; para uma mesma potência ele diminui com o aumento da tensão e também com o aumento do diâmetro do condutor. Já o efeito corona é proporcional à tensão, mas também diminui com o aumento do diâmetro do condutor e/ou com a constituição de feixes por fase.

Por outro lado, o investimento na instalação é tão maior quanto maior for o aumento do diâmetro do condutor, seja pelo preço do cabo, peso crescente e consequente aumento da robustez das estruturas e maiores recursos humanos e tecnológicos para o seu lançamento.

Na Figura 1 está ilustrado o processo de decisão associado a essa escolha. No eixo horizontal está indicado o aumento da bitola do condutor. No eixo vertical as consequências financeiras anuais dessa escolha. Pode ser observado que, na curva A, o aumento da bitola do condutor leva à diminuição das perdas, já, na curva B, esse aumento conduz à elevação dos custos com a concepção da linha. A soma dessas duas curvas gera a curva C (custos incrementais relacionados com o aumento da bitola). Como esperado, a curva C indica a existência de um ponto de mínimo: bitola ótima do condutor.

Figura 1 – Identificação do condutor ótimo. Adaptado de [1]

No que tange ao efeito corona, linhas bem dimensionadas não devem apresentar perdas maiores do que 2 a 8 [kW/km], para as classes de 230 e 500 kV, respectivamente. Esses valores podem ser inferidos em função da geometria da linha, diâmetro do condutor e arranjo do feixe, tendo o gradiente superficial como foco [1].

No cálculo das perdas por efeito Joule, as linhas devem ser projetadas com previsão de demanda mínima de 10 anos. A potência a ser considerada deve ser um valor médio obtido da curva P=f(n), conforme ilustração contida na Figura 2.

Figura 2 – Exemplo de curva de demanda de uma linha. Adaptado de [1]

No eixo horizontal está representada a evolução dos anos e, no vertical, o crescimento da demanda. A área “OABCD” representa a energia total transmitida em “n” anos. Esta área corresponde a área retangular “OBC’D'”, cuja ordenada é Pm. É como se a linha operasse durante “n” anos com uma potência constante Pm, nesse mesmo período, transmitindo a mesma quantidade de energia E. O valor de Pm seria obtido pela equação:

Ao se considerar o fator de carga da curva de demanda (FC), a energia perdida anualmente poderá ser obtida a partir da equação [1]:

Onde U é a tensão nominal da linha, cos(fi) o fator de potência e R a resistência do condutor.

A partir dessa formulação é possível se partir para precificar a energia perdida. Esta é uma fase delicada, pois quanto maior o valor atribuído ao preço da energia perdida, maiores serão as bitolas a serem definidas e o montante dos investimentos necessários. São considerados dois critérios:

  • Critério 1 – a energia perdida é considerada como lucro que a empresa deixa de auferir;
  • Critério 2 – o preço da energia perdida é fixado em função do seu custo real no ponto de entrega.

Para o critério 1 se determina o lucro global da empresa, por ano, divide-se esse montante pelo número de kWh vendidos no mesmo período. O preço da energia perdida será o produto de E, obtido pela última equação, pelo lucro médio por kWh alcançado.

Para o critério 2 se considera o preço do kWh como sendo composto de duas partes, sendo uma variável, denominada custo de produção (ou “compra” da energia), a qual é proporcional ao número de kWh produzidos e a segunda parte proporcional à potência máxima transmitida. Esse custo passa a ser calculado pela seguinte equação [1]:

Onde Cp é o custo de produção, Cs o custo da instalação, I a taxa anual fixa de recuperação do investimento e PM a potência máxima transmitida. Esta formulação, apesar de mais elaborada traduz melhor o preço da energia perdida, sem incorrer em superfaturamento dessa grandeza e em erros graves na tomada da decisão quanto a escolha do condutor.

Observação: click em Home para acessar o site da CONSTDEEL

O custo anual da instalação (Cs) é composto do custo da obra, em cotas anuais, encargos financeiros anuais e custo anual de manutenção e operação. No custo da obra, devem ser consideradas as etapas relacionadas no quadro apresentado na Figura 3.

Figura 3 – Relação de etapas da obra a serem precificadas

Para os encargos financeiros (Cf) devem ser consideradas as despesas para obtenção de financiamentos, taxas, emolumentos, etc, como também os juros passivos totais até o final da amortização dos empréstimos.

Já para os custos de manutenção e operação (Cm) devem ser estimados para o mesmo prazo admitido para amortização do investimento.

A totalização desses custos para compor o custo da instalação (Cs), encontra-se ilustrada na Figura 4.

Figura 4 – Detalhes a serem considerados no cálculo do custo da instalação. Adaptado de [1].

A formalização exposta pode ser utilizada para escolha simultânea da classe de tensão e da bitola do cabo condutor da linha. Nessa aplicação, se faz a opção pela alternativa que levar ao menor custo anual, computando-se as perdas e os custos com a instalação, conforme ilustrações registradas na Figura 5, na qual as condições AB1, AB2, AB3, constituiriam as curvas de custos incrementais para cada classe de tensão analisada.

Figura – 5 – Escolha simultânea da classe de tensão e bitola do condutor. Adaptado de [1].
Observação: click em Home para acessar o site da CONSTDEEL

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

A formulação aqui descrita para escolha da bitola do condutor e também expandida para identificação da classe de tensão da linha de transmissão, apesar de mais elaborada, agrega maior precisão na hora de decidir qual a melhor alternativa. É importante considerar que tal escolha não deve incorporar imprecisões grosseiras uma vez que as consequências dos erros irão perdurar durante todo o tempo de vida da linha (muitas vezes superior a 80 anos). Por outro lado, aspectos coadjuvantes para a tomada de decisão devem também ser incorporados, como por exemplo a padronização adotada na empresa ou no setor, no que tange à classe de tensão e bitolas, tendo em vista as políticas de produção em escala, rotinas/padrões de manutenção, despesas com estocagem de sobressalentes, etc.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA:

[1] Fuchs R. D. Transmissão de Energia Elétrica. Segunda Edição. Livros Técnicos e Científicos Editora. 1979.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR:

Central Station Engineers – Electrical Transmission and Distribution Reference Book. Westinghouse, East Pittisburg, 1950, 4a edição.

Rudolf Rahnt – Technishe and Wirstschaftliche Gesichtspunkte dic Energibertragung mit Hochstspannungen. Revista Siemens, Belim, set. 1966.

Biermans, J. – Energicubertragung auf Gross Enfternungem. Verlag G. Braun, Karlsruhe, 1949.

Paris, L. e Comellini, E. – Cost Reduction of Extra High Voltage Lines. Cigré, Paris, 1966, n. 422, Vol. 3, 21a Reunião.

Crary, S.B. e Johnson, I. B. – Economics of Long Distance A. C. Power Transmission. AIEE Transactions, Nova Iorque, 1947, Vol. 66. Pág. 1092-1099.

Stclair, H. P. e Peterson, E. L. – System Economics of Extra High Voltage Transmission. AIEE Transactions, Nova Iorque, 1951. Vol. 70. Parte I. Pág. 841-851.

Henderson, J. M. e Wood, A. J. – An Economic Study of High Voltage Transmission. AIEE Transactions, Nova Iork, 1956. Vol. 75. Parte III. Pág. 695-704.

——Conductor Economics on High Voltage Transmission Systems. AIEE Transactions, Nova Iorque, 1957. Vol. 76. Parte III. Pág. 502-508.

Abetti, P. A. e outros – Economics of Single and Bundle Conductors for Extra High Voltage Transmission. AIEE Transactions, Nova Iorque, nov. 1960. Vol. Pas 79. Parte III. Pág. 53-60.

CAEEB – Diretrizes para Estimativa de Custos de Investimentos em Sistemas de Transmissão. Eletrobrás, Rio de Janeiro, Trabalho Especial, n. 13, out. 1972.

Projeto EHV – EHV Transmission Reference Book. Edson Electric Institute, Nova Iorque, 1968.

Peterson. W. S. – Une Formule poy Estimation du poids des Pylones et sonApplication a l’Étude des Conditions Economiques d’Établissement d’une Ligre de Transport d’Energie. Relatório n. 218, 13a Reunião, Paris, 1950. Vol. II.

Campos, G. L. Ivanoff, De Jardini, J. A. – Computadores Digitais em Sistemas de Transmissão. Mundo Elétrico, São Paulo, maio 1970, n. 71.

Nolasco, J. F. e Veranada Silva Neto, J. – Estudo de Otimização das Linhas de Transmissão de 500 kV da CEMIG. III Seminário Nacional de Produção e Transmissão de Energia Elétrica, Curitiba, 1975.

Deixe um comentário

Site criado com WordPress.com.

Acima ↑