Características Físicas das Linhas de Transmissão (Cabos Condutores)

Esse post inicia uma série de novos posts voltados para analisar as características físicas de uma linha de transmissão. De uma forma mais abrangente pode ser afirmado que essas características ditam o comportamento da linha em regime normal de operação ou em situações transitórias. Daí a conveniência de, nos estudos de uma linha de transmissão se proceder, inicialmente, um exame de suas características físicas e dos elementos que as compõem.

Resumidamente, uma linha aérea de transmissão de energia é composta por cabos condutores, isoladores e ferragens, estruturas suportes e cabos para-raios, conforme ilustrações contidas na Figura 1.

Figura 1 – Partes componentes de uma linha de transmissão [1]

Numa visão elétrica, focando na necessidade de transmissão de uma determinada potência, esta grandeza pode ser determinada pelo produto da tensão pela corrente. Em uma linha, a corrente é assegurada pelo cabo condutor, enquanto a tensão é mantida pelos demais componentes. Portanto, cada um desses elementos desempenham o seu papel, na missão de transmitir a energia elétrica necessária às cargas demandadas. Este post abordará especificamente os cabos condutores, sem desmerecer o papel dos demais componentes, os quais serão devidamente enfocados, nos posts seguintes.

Em seu papel de transmitir a corrente elétrica, o condutor deve se caracterizar por possuir alta condutibilidade, baixo custo, boa resistência mecânica, baixo peso específico e alta resistência à oxidação causadas por agentes químicos poluentes. Os materiais que atendem parcialmente a essas características são o cobre, alumínio e suas ligas. O cobre maciço foi o material mais utilizado nos primórdios da transmissão de energia elétrica. Diante de seu custo e peso específico, o alumínio passou a ocupar esse espaço [2].

Por outro lado, o uso de fios foi abandonado em favor dos cabos, obtidos por encordoamento de fios elementares. A título de padronização, a ABNT se baseava na americana “American Wire Gauge” (AWG), a qual estabeleceu a chamada base “circular mil”: corresponde à área de um círculo cujo diâmetro é igual a um milésimo de polegadas (0,00064516 mm2). A norma brasileira atual NBR7270 – Cabos de Alumínio com Alma de Aço para Linhas Aéreas” adota o diâmetro em milímetros.

Dado que a formulação americana ainda é muito aplicada na literatura, vale à pena explorar um pouco mais a sua estruturação. A fórmula para calcular o circular mil para qualquer calibre AWG é a ilustrada na equação a seguir, onde An representa a área circular mil para a dimensão AWG “n”:

Por exemplo, um fio calibre 12 AWG usaria n = 12; e o resultado calculado seria An = 6.530 circulares mils. Os tamanhos com múltiplos de zero são sucessivamente maiores do que o tamanho de calibre 0 e podem ser indicados usando “número de zeros / 0”; Por exemplo 4/0 para o calibre 0000. Para um tamanho de fio m / 0 AWG, usa-se: n = – (m – 1) = 1 – m na fórmula acima. Por exemplo, o calibre 0000 ou o calibre 4/0, m = 4 e n = -3; E o resultado calculado seria An = 211,600 circulares mils [3]. Na Tabela 1 são registradas algumas correlações das escalas AWG e métrica.

Tabela 1 – Correlação entre a escala AWG e a série métrica. Adaptado de [2].

Cabe observar, na Tabela 1, que a capacidade de corrente está associada a condições ambientais presentes (temperatura ambiente, velocidade de vento, incidência solar e estado do condutor), as quais devem ser criteriosamente avaliadas para correção dos valores apontados na coluna indicada (*).

Outro aspecto também tradicionalmente utilizado é a referência comercial, de origem canadense. Nesta referência, se adota nome de flores para condutores unicamente constituídos de filamentos de alumínio (CA) e nome de aves para condutores de alumínio com alma de aço (CAA).

É importante ressaltar, entretanto, que, apesar de todo o mérito da referência criada pelos canadenses, na prática não existe uma correlação biunívoca entre a nomenclatura e as características dos condutores, como certamente foi idealizado: alguns cabos (Grosbeak por exemplo) possui o mesmo nome para diferentes condutores encontrados no mercado. Portanto, é preciso um cuidado especial, quando da especificação desse componente.

O cabo CAA teve (e ainda tem) um papel importante na evolução da tecnologia de transmissão da energia elétrica. A composição dos filamentos de alumínio com os de aço aliou duas características fundamentais para o transporte da energia a grandes distâncias. A elevada condutividade do alumínio associada com a resistência mecânica do aço permitiu a introdução de vãos cada vez maiores, repercutindo na redução do número de estruturas e consequente economia no projeto final da linha. Ainda com essa tecnologia, alguns tipos de condutores passaram a ser utilizados: copperweld (aço e cobre), alumoweld (aço e alumínio), os quais têm aplicações específicas, geralmente direcionadas para aterramento e os tubulares expandidos, nos quais os filamentos de alumínio e aço são separados por enchimento de papelão impregnado com óleo.

Não obstante a significância história da tecnologia CAA, o passar dos tempos associado à agressividade do meio, tem levado a camada de zinco que separa o alumínio do aço a ser danificada, deixando o aço em contato direto com o alumínio. Essas constatações têm levado ao surgimento de uma pilha galvânica, na qual o aço corrói o alumínio, fazendo com que suas características de condutividade sejam drasticamente afetadas. O diagnóstico do problema tem levado diversos países a substituir o condutor CAA por condutores com novas tecnologias agregadas [4]. Neste sentido, uma nova geração de condutores vem sendo implementada, os quais serão abordados na sequência.

Cabo de alumínio-liga 6201 (CAL 6201)

A liga de alumínio 6201 (alumínio-magnésio-silício) foi desenvolvida inicialmente como uma alternativa ao cabo CAA de alta resistência mecânica. Sua resistência mecânica é duas vezes superior a da liga Al 1350. Esta propriedade permitiu, em algumas situações, substituir os fios de aço galvanizado que formam a alma do cabo CAA, diminuindo assim o peso por unidade de comprimento dos condutores [5].

Sua condutividade é de 52,5% IACS contra uma condutividade de no mínimo 61 % IACS para a liga Al 1350. Quando se compara as seções transversais dos condutores essa aparente desvantagem é revertida. O tratamento térmico aplicado a liga antes da trefilação (processo onde um material é forçado a passar em uma matriz para ter seu diâmetro reduzido e comprimento aumentado) confere ao material um aumento de resistência à corrosão inter-granular, tornando-o uma excelente opção para aplicações em ambientes altamente poluídos e/ou de salinidade marítima severa.

O cabo CAL também apresenta menores perdas elétricas. Como o condutor não possui componentes magnéticos as perdas magnéticas, que ocorrem no caso do cabo CAA devido à indução na alma de aço, não existem e sua dureza superficial, duas vezes a da liga Al 3510, reduz a abrasão do condutor durante o lançamento e manuseio reduzindo as perdas por efeito corona. O diâmetro externo equivalente do cabo CAL tem aproximadamente a mesma ampacidade e resistência mecânica que os seus equivalentes CAA, com uma relação resistência mecânica peso muito melhorada. Porém o coeficiente de dilatação térmica é maior do que o do cabo CAA limitando seu uso como condutor de transmissão.

Em 1970 foi desenvolvida na Suécia a liga de alumínio 1120, uma opção com características intermediárias entre a liga 1350 e a 6201. Sua condutividade é de 59% IACS, sua resistência mecânica é cerca de 15% inferior à da liga 6201 e fluência até 60% inferior à das outras ligas de alumínio. O cabo CAL 1120 é amplamente utilizado na Austrália há mais de 40 anos [6]. Assim como ocorre para a liga de alumínio 6201, também é possível obter outras combinações de tentos da liga de alumínio 1120 com tentos da liga de alumínio 1350 ou de aço, resultando em cabos de maior resistência mecânica. Desde 2011, a Companhia Paranaense de Energia (COPEL) utiliza em seus novos empreendimentos cabos CAL 1120 e CALA 1120, totalizando mais de 1300 km de linhas de transmissão, tanto em 230 kV como 500 kV [7].

Cabo de alumínio termo resistente com alma de aço (T-CAA)

A liga de alumínio termo resistente, utilizada no cabo T-CAA, possui as mesmas características elétricas e mecânicas da liga de alumínio tradicional 1350, mas pode operar em regime continuo a 150 °C e em regime de emergência a 180°C sem que haja deterioração de suas propriedades mecânicas [5]. Essa característica deve-se ao maior teor de zircônio encontrado na liga, 2,4 vezes o valor encontrado na liga Al 1350.

A adição de zircônio é utilizada para formar uma fina camada entre os grãos da liga de alumínio inibindo o recozimento e a recristalização do material, aumentando consequentemente a temperatura de recozimento, podendo aumentar a temperatura de operação dos cabos que utilizam esse tipo de liga. O valor máximo recomendável para o condutor de liga de alumínio 1350 é de 90°C para regime continuo e 120°C para regime de emergência [8].

O cabo T-CAA tem uma capacidade de condução de corrente até 50% superior a de um cabo CAA de mesma bitola e considerando as mesmas condições ambientais. Pode, então, ser aplicado para elevar o limite térmico das linhas de transmissão quando este limite está sendo restringido pela capacidade térmica do condutor em uso. Uma alternativa típica para solucionar este problema seria a utilização de um condutor de maior bitola acarretando maiores esforços sobre as estruturas o que não é desejado devido ao tempo em que as mesmas estão em operação e o seu estado de conservação. Também pode ser utilizado em linhas novas com aumento da capacidade de 50%.

Já para uma mesma capacidade de corrente o cabo T-CAA teria um diâmetro 20% a 30% inferior ao do cabo CAA. Consequentemente há uma redução nos custos dos condutores, acessórios e estruturas [44]. É bastante utilizado pelas empresas de distribuição e transmissão do Japão [9].

O cabo de alumino termo resistente também pode ser o utilizado como condutor auxiliar na técnica do feixe expandido (FEX) para aumentar a potência natural da linha. Como o cabo de menor bitola, utilizado no FEX, pode ser submetido a uma densidade de corrente maior do que a do cabo original e consequentemente a uma maior temperatura, a utilização de cabos T-CAA é uma boa opção devido a seu limite térmico superior.

A desvantagem do cabo T-CAA é o preço, cerca de 10% superior ao cabo CAA, no entanto este custo pode ser compensado pelo ganho na capacidade de transmissão da linha.

Existem outros condutores que utilizam ligas de alumínio- zircônio em sua coroa. Entre eles estão o condutor de liga de alumínio ultra termorresistente (ZTACSR – Ultra Thermal Resistant Aluminium Alloy, Steel Reinforced) e o condutor de liga de alumínio extra termorresistente (XTACSR – Extra Thermal Resistant Aluminium Alloy, Steel Reinforced) que podem operar em regime contínuo a 210 °C e 230 °C, respectivamente [60]. A diferença entre as ligas utilizadas nestes cabos está no teor de zircônio.

Condutor tipo gap de liga de alumínio ultra termo resistente reforçado com aço (GZTACSR)

Os materiais constituintes do cabo GZTACSR (Gap Type Ultra Thermal Resistant Aluminium Alloy, Steel Reinforced) são os mesmos utilizados no cabo ZTACSR. A diferença está na primeira camada da coroa de alumínio que tem um formato compacto e um certo afastamento da alma de aço. Este gap, geralmente preenchido com graxa resistente a altas temperaturas, proporciona ao condutor uma alta capacidade de absorção de vibração [10]. Na Figura 2 é apresentado um cabo GZTACSR constituído por uma alma de aço envolvida por duas camadas compactas de alumínio. Existem condutores deste tipo com apenas a primeira camada da coroa em formato compacto e as demais com fios de formato circular.

Figura 2 – Condutor GZTACSR [11]

No tensionamento do cabo GZTACSR a tração é aplicada apenas a alma de aço, fazendo com que o coeficiente de dilatação linear e alongamento dependam quase que exclusivamente das propriedades da alma de aço. Quando submetido a temperaturas inferiores à vigente durante o lançamento a tração passa a ser aplicada sobre todo o cabo e o desempenho deste é semelhante ao do cabo CAA. A instalação deste cabo requer técnicas especiais de tensionamento e ferragens específicas.

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Condutor de liga de alumínio ultra termo resistente, reforçado com INVAR (ZTACIR)

A principal diferença entre o cabo ZTACIR (Ultra Thermal Resistant Aluminum Alloy Conductor, Invar Reinforced) e o cabo ZTACSR consiste em sua alma de Invar no lugar do aço. O Invar é uma liga de aço com 36-38% de níquel. Esta composição proporciona um coeficiente de dilatação térmica praticamente invariável com o calor. Os condutores da coroa são compostos de uma liga de alumínio ultra termorresistente de alta condutividade que permite sua operação a 210°C em regime contínuo e 240 °C em regime de emergência [10]. Na Figura 3 é apresentada a estrutura típica de um cabo ZTACIR.

Figura 3 – Condutor ZTACIR [11]

A combinação das propriedades da alma e da coroa permite um aumento da ampacidade com efeito de inibição da flecha a altas temperaturas. O cabo ZTACIR possui um valor de temperatura entre 85 °C e 100 °C que determina seu comportamento mecânico. Acima deste valor impera o efeito de inibição da flecha, pois os esforços mecânicos são transferidos completamente para a alma de Invar e a resistência mecânica passa a ser fornecida por esta liga. Abaixo do valor citado o comportamento do condutor é semelhante ao do cabo CAA. Sendo assim uma boa alternativa para linhas que operem entre 85 °C e 100 °C. Suas principais desvantagens são uma baixa tração de ruptura e maior resistência elétrica que um cabo CAA de mesma bitola. Também está disponível comercialmente o cabo XTACIR (Extra Thermal Resistant Aluminum Alloy Conductor, Invar Reinforced) que pode operar em regime contínuo a 230 °C e em regime de emergência a 310 °C [12].

Cabo de alumínio suportado pelo aço (ACSS)

A liga de alumínio 1350-0 utilizada nos tentos que formam a coroa deste cabo permite sua operação a 200°C em regime contínuo e 250°C em regime de emergência. Também conhecida como tempêra mole, esta liga possui uma condutividade de 63% IACS contra 61,2% IACS do cabo CAA [13].

Quando o condutor é aquecido os tentos de alumínio se alongam, transferindo todos os esforços mecânicos para a alma de aço fazendo com que a energia das vibrações seja dissipada pelo atrito entre os tentos. Essa acomodação da coroa sobre a alma de aço faz com que o cabo adquira a mesma resistência mecânica, coeficiente de dilatação linear e creep que o aço. Quando o cabo volta à sua temperatura anterior os tentos permanecem com o mesmo alongamento e não retorna a seu comprimento original [9]. As características de auto-amortecimento deste condutor permitem sua aplicação a taxas de trabalhos até 50% mais elevadas que as utilizadas no cabo CAA.

Apesar da maior temperatura de operação, características de amortecimento e maior condutividade o cabo ACSS (Aluminum Conductor Steel Supported) possui uma menor tração de ruptura e menor módulo de elasticidade quando comparado a um cabo CAA de mesma bitola, gerando flechas maiores. As empresas do setor elétrico que utilizam o cabo ACSS têm reportado dificuldades no manuseio do cabo, devido à menor dureza de sua superfície; necessidade de utilizar técnicas especiais para lançamento, como blocos de borracha para evitar danos ao condutor; e maior tempo de tensionamento, por causa da obrigatoriedade de realizar pré-tensionamento.

Empresas do EUA e Canadá utilizam a capacidade extra deste condutor para condições de emergência ou quando há previsão de aumento de demanda e não para operação contínua a altas temperaturas e com ganho de ampacidade. A menor tração de ruptura deste cabo faz com que ele seja tensionado com um valor inferior ao cabo CAA equivalente, acarretando um aumento de flecha considerável. Com o aumento da temperatura os limites das alturas de segurança podem ser excedidos. Logo, não é possível realizar um upgrade térmico de uma linha que utilize um cabo CAA através da substituição por um cabo ACSS de mesma bitola [10].

Cabo de alumínio reforçado por compósito (ACCR)

O cabo ACCR (Aluminum Conductor Composite Reinforced) foi desenvolvido pela 3M para trabalhar em altas temperaturas com flecha reduzida. Seu baixo peso, baixo coeficiente de dilatação linear, alta resistência mecânica e condutividade fazem deste condutor uma opção de alto desempenho para travessias de vãos longos e/ou upgrades térmicos. É possível obter um ganho na ampacidade de até 300% apenas com a troca do condutor por outro de mesmo diâmetro e peso sem que haja reforços ou modificações nas estruturas [14].

O cabo ACCR é constituído por uma alma de compósito metalo-cerâmico e uma coroa com tentos de liga de alumínio-zircônio. As propriedades da liga utilizadas na coroa permitem a operação do condutor a 210°C em regime permanente e 240°C em regime de emergência sem que haja redução da sua resistência mecânica mantendo as mesmas características de fadiga e tração de ruptura da liga de alumínio 1350.

Cada tento da alma de compósito possui milhares de fibras de óxido de alumínio de altíssima pureza e elevada resistência mecânica, embebidas em uma matriz de fios de alumínio puros proporcionando aos cabos menor peso e menor coeficiente de dilatação térmica (metade do aço), maior resistência mecânica e elevada resistência a corrosão. Na Figura 4 a é ilustrado um condutor cabo ACCR e o detalhe de um tento da sua alma de compósito, que possui de 15000 a 25000 fibras de alumina.

Figura 4- Condutor ACCR [15]

Devido a suas excelentes características e exaustivos testes em laboratório e em campo realizados pela 3M [16] o cabo ACCR teve rápida aceitação. Está operando em ambientes altamente corrosivos (linha de 46 kV no Havaí desde 2002), regiões de altas temperaturas (linhas de 230 kV em Phoenix desde 2004), sujeitas a ventos intensos (linha de 115 kV na travessia do rio Columbia), temperaturas baixíssimas, vibração e galope (linha de 230 kV na Dakota do Norte) com desempenho satisfatório.

No Brasil duas empresas já utilizam o cabo ACCR. A CPFL Energia empregou o condutor para aumentar a capacidade de uma linha de transmissão que atravessa uma região densamente povoada onde a construção de novas linhas apresentaria várias dificuldades devido à proximidade das residências. Já a Companhia de Transmissão Elétrica Paulista (CTEEP) está utilizando o cabo ACCR na operação, desde o dia 15 de fevereiro de 2009, de uma linha de 138 kV com 1,7 km de comprimento que cruza o rio Paraná. A instalação foi realizada em seis dias, aumentou a ampacidade em 121% e reduziu o peso sobre as estruturas em 30%. Com o uso deste condutor, no lugar de um com peso superior, não foi necessário substituir ou reforçar as fundações de concreto localizadas no interior do rio para sustentar as torres, o que exigiria o uso de dinamite em uma área ambientalmente sensível [17].

Condutor de alumínio com alma de compósito (ACCC)

A Composite Technology Corporation (CTC) em parceria com a General Cable desenvolveu o cabo ACCC (Aluminum Conductor Composite Core). A mesma tecnologia empregada no setor aeroespacial para substituir o aço, fibra de vidro e outros metais, agora é utilizada na composição de condutores de linhas aéreas de transmissão e distribuição. A alma deste condutor é formada por um compósito de fibras de vidro e carbono embebidas em uma matriz de resina termo endurecível. Os tentos da coroa são de alumínio liga 1350-0 no formato trapezoidal. Esta combinação permite um ganho de ampacidade de 100% quando comparado a um cabo CAA de mesma bitola [18]. Na Figura 5 é ilustrado um cabo ACCR.

Figura 5 – Condutor ACCC [20]

O cabo ACCC é semelhante ao cabo ACSS. Quando o cabo é aquecido os esforços mecânicos são transferidos para a sua alma, que passa a ditar seu comportamento mecânico. O baixo coeficiente de dilatação linear da alma de compósito (cerca de sete vezes inferior ao do aço) e sua elevada relação resistência mecânica peso produzem flechas muito menores que as geradas por um cabo CAA de mesma bitola. Em [19] é mostrado que, para uma variação de temperatura de 75 °C para 200 °C, a flecha de um cabo ACCR Drake sob determinadas condições atmosféricas varia 3,23 m enquanto a flecha do cabo equivalente ACCC varia apenas 31 cm. A maior resistência mecânica da alma permite reduzir o número ou altura das estruturas.

O formato trapezoidal dos tentos da coroa elimina os vazios anteriormente criados pelos tentos circulares e proporciona uma seção transversal mais uniforme com 28% a mais de alumínio para o mesmo diâmetro do cabo CAA. Essa maior quantidade de alumínio associada à maior condutividade da liga 1350-0 é que torna possível o aumento da ampacidade.

O cabo ACCC pode operar em regime permanente a 180 °C e em regime de emergência a 200°C. Quando comparado ao cabo CAA de mesma bitola, possui o mesmo peso, redução de 18% das perdas elétricas e resistência mecânica 25 % superior. O cabo também oferece ótimas características de auto-amortecimento, alta resistência à corrosão e só ocorre creep a partir de 235 °C e se a tração no condutor exceder 70% da tração de ruptura. Desde 2004 a CTC vem realizando vários testes em laboratórios e em campo para aprimoramento e consolidação do cabo ACCC, mais de 20 instalações experimentais e estão em operação na França, EUA e China.

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Considerações finais

Visualiza-se, portanto, que a tecnologia de condutores empregados em linha de transmissão experimenta uma verdadeira revolução, superando em muito o “heroico” CAA e permitindo a superação de desafios inimagináveis, conforme ilustrações contidas nas Figuras 6 e 7. Diversas outras vantagens podem ser vislumbradas através da aplicação dessas novas tecnologias, ressaltando-se: a redução dos custos das novas linhas pela adoção de vãos cada vez maiores, o aumento considerável na ampacidade das novas linhas de transmissão, diante dos elevados limites térmicos dos novos condutores e os seus reduzidos coeficientes de dilatação térmica.

Figura 6 – Aplicação do condutor ACCC
Figura 7 – Aplicação do condutor ACCR

Bibliografia

[1] Labegalini P. R., Labegalini J. A., Fuchs R. D., Almeida M. T., Projetos Mecânicos das Linhas Aéreas de Transmissão. 2ª Edição. Edgard Blucher, 1992.

[2] Luna A. M., Materiais de Engenharia Elétrica. Volume 1. Edições Bagaço. 2006.

[3] Wikipedia. Disponível em https://en.wikipedia.org/wiki/American_wire_gauge. Acesso em 02 de abril de 2018.

[4] Silva A. A. P., Modelagem para Repotencialização de Linhas de Transmissão Através da Aplicação de Condutores Especiais. Dissertação de Mestrado. PPGEE/UFPE. 2009.

[5] NEXANS. Alumínio: Condutores Nus. 2008.

[6] FARMAIN G., Alumínio Liga 1120 – CAL 1120 para linhas de transmissão e de distribuição. O Setor Elétrico. n. 133, p. 82-83, 2017.

[7] HOFFMANN J. N., MOLLHOFF F. R. M., JOLANDEK M. A. et al. Condutores de Alumínio liga 1120 e Alternativas de Feixes para 500 kV. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE PRODUÇÃO E TRANSMISSÃO DE ENERGIA ELÉTRICA. 2015. Anais. Foz do Iguaçu. Outubro: 2015.

[8] NASCIMENTO, C. A.; GIUDICE, E. B.; MOURÃO. M. A. et al. Aumento da Capacidade de Transmissão de Linhas Aéreas Utilizando Cabo CAA de Liga de Alumínio Termorresistente. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE PRODUÇÃO E TRANSMISSÂO DE ENERGIA ELÉTRICA (15.: Out. 1999: Foz do Iguaçu, Paraná).

[9] CIGRÉ. Results of the Questionnaire Concerning High Temperature Conductor Fittings. 2005.

[10] ZAMORA, I. ; MAZON, A. J. ; EGUIA, P. et al. High-temperature Conductors: a Solution in the Uprating of Overhead Transmission Lines. Power Tech Proceedings, 2001 IEEE Porto. v. 4, Porto, Set. 2001.

[11] SUMITOMO ELECTRIC U.S.A., INC. High Temperature Up-rating Conductors. Disponível em: http://www.sumitomoelectricusa.com/scripts/products/prp/urcond.cfm. Acesso em: 6 Mai. 2009.

[12] SAKABE, S.; MORRI, N.; SATO, K. et al. Development of Extremely-Low-Sag Invar Reinforced ACSR (XTACIR). IEEE transactions on Power Apparatus and Systems. v. PAS-100, n. 4, p. 1505-1511, Abr. 1981.

[13] ADAMS, H. W. Stell Supported Aluminum Conductors (SSAC) for Overhead Transmission Lines. IEEE transactions on Power Apparatus and Systems. v. PAS-93, n. 5, p. 1700-1705, Set. 1974.

[14] JOHNSON, D. J.; ANDERSON T. L.; DEVE H.E. A New Generation of High Performance Conductors. Power Engineering Society Summer Meeting, 2001 IEEE, Vancouver, v. 1, p. 175-179, Jul. 2001.

[15] 3M. 3M™ Aluminum Conductor Composite Reinforced (ACCR) Technical Summary. Disponível em: http://multimedia.mmm.com/mws/mediawebserver.dyn?666666 0Zjcf6lVs6EVs66SN_JCOrrrrQ-. Acesso em: 6 Mai. 2009.

[16] DOMINGUITE, M. C. C.; OLIVEIRA, L. C. S.; DEVE, H. Teste de campo em Condições Críticas para Condutor para Linha e Transmissão Suportado por Compósito sem Alma de Aço. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE PRODUÇÃO E TRANSMISSÂO DE ENERGIA ELÉTRICA (19.: Out. 2007: Rio de Janeiro, Rio de Janeiro).

[17] Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista utiliza o ACCR para recapacitação de linha de transmissão na travessia do Rio Paraná. Fator Brasil, 24 Mar. 2004. Disponível em: http://www.revistafatorbrasil.com.br/ver_noticia.php?not=71731. Acesso em: 29 abr. 2009.

[18] COMPOSITE TECHNOLOGY CORPORATION. ACCC Summary Technical Report. Disponível em: http://www.compositetechcorp.com/TestSummary/ACCC%20Su mmary%20Technical%20Report.pdf. Acesso em: 4 Mai. 2009.

[19] COMPOSITE TECHNOLOGY CORPORATION. ACCC Frequently Asked Questions. Disponível em: http://www.compositetechcorp.com/TestSummary/Frequently AskedQuestions.pdf. Acesso em: 4 Mai. 2009.

[20] DAWSON, D. Composites connect with the world of cabling. Composites World, 2 Jan. 2006. Disponível em: http://www.compositesworld.com/articles/composites-connect-with-the-world-of-cabling.aspx. Acesso em: 5 Mai. 2009.

Co-Autor Convidado

Engenheiro eletricista, graduado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 2006, e Mestre em Engenharia Elétrica pela UFPE, em 2009.  Membro do Grupo de Pesquisas em Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica (GpTD) desde 2007. Atualmente trabalha  como engenheiro de planejamento na Equatorial Alagoas e como professor na UNIFAVIP.

2 comentários em “Características Físicas das Linhas de Transmissão (Cabos Condutores)

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  1. Sabe o que acontece?

    Chega o artigo todo por e-mail.

    As pessoas não devem nem entrar no link… Deveria ver alguma coisa só para ter a chamada… E a pessoa entrar no site.

    Mônica Girão Psicóloga 81. 9.9239-7524 / 9.9928-0422

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